Quarta-feira, 2 de Maio de 2007

bagagem lírica

 

            Outro dia, visitei a fortaleza de Santa Catarina, em Cabedelo. Forte silêncio, já imortalizado pelo poeta paraibano Saulo Mendonça. Impossível não se transportar a outros tempos quando se visita aquele espaço. É involuntário o devaneio.

O escritor universalmente argentino Julio Cortázar (1914-1984) nos expressa tal sensação no seu “Prosa do Observatório” a partir do antigo ponto de observação astronômico construído por um sultão, na Índia.

            Mas não queria falar de Cortázar ou mesmo do nosso forte e sim de um livrinho chamado “Bagagem lírica- apontamentos de uma viagem literária” (editora Sal da Terra, 2005) escrito pelo paraibano André Ricardo Aguiar e pela portuguesa Margarida Ribeiro. É interessante como os espaços carregam história e como eles nos impactam. É um pouco o que Blake dizia: caminhamos sobre as cabeças de nossos mortos.

            O brasileiro e a portuguesa nos lançam inicialmente a um pórtico que uma advertência sobre a viagem. O livrinho de 60 páginas não é um guia de viagem para turistas nem segue um roteiro coerente. Trata-se sim de uma viagem aos pulos, de uma viagem na qual o que importa é a bagagem lírica.

            Aldeias, costumes e castelos se mesclam numa prosa viva, num verdadeiro diálogo pós-colonial entre povos irmãos, entre homem e mulher. Claro que o passado traz a memória da colonização. O livro de André e Margarida situa-se como se o Brasil “descobrisse” Portugal aos 500 anos. Não com a gana de conquistar ou dominar, mas de sentir, deixar-se levar pela humana paisagem, pelos elementos, pelas experiências. Lusíadas imagens, lusitana saudade cravadas na pedra da memória.

            Bagagem lírica traz em si o discurso da pedra que carrega o passado e o futuro, a runa. A pedra, como diria o pensador dos elementos Gaston Bachelard(1884-1962), está presente em todos os diálogos como sinônimo de civilização, mas também de anterioridade e de eternidade. A fenda da pedra portuguesa, cravada num castelo ou forte visitado pelos dois autores, ao mesmo tempo os protege da chuva repentina e também os acolhe como grande útero protetor. E o que a água do mar separa a chuva une, numa dinâmica entre o doce e o salgado.

            E ao retornar de tal viagem sentimental, por que não lembrar Laurence Sterne (1713-1768), no qual o viajante não busca paisagens nem monumentos mas pequenas impressões, causadas principalmente pelo elemento humano. E também, por que não também lembrar das cidades imaginadas de Ítalo Calvino? Tudo isso numa cidade “quatrocentona” como a capital da Paraíba.


publicado por novojornalismo às 04:11
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1 comentário:
De Ana a 5 de Maio de 2007 às 14:41
Tá muito bacana seu blog, Carlos! Vou acompanhando daqui! Um beijo!


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