Terça-feira, 15 de Maio de 2007

A voz da infância

Uma ladeira e um semáforo que abre e fecha rapidamente impedem o motorista apressado de ver uma pequena sala na Rua Índios Cariris, em Campina Grande. É no número 218 que fica o escritório de um dos maiores especialistas em objetos antigos da Paraíba, o antiquário Mário Lúcio Lima. O espaço parece pequeno, mas comporta tudo: cristaleiras, rádios, radiolas, lustres, penteadeiras, cabides, armários, birôs e até nomaradeiras.
            A paixão de Mário é pelos rádios. Eles estão espalhados, empilhados como pequenas caixas tagarelas de variados modelos: um Montreal (canadense), um Campeão ao lado de um Nord Som (ambos fabricados no bairro do Brás, na capital paulista), outro Transbrasil (ABC Canarinho) e até um “moderno” CCE estéreo. Algumas caixas lembram o desenho e o arrojo da arquitetura de Brasília, são pequenos “prédios” com curvas acentuadas.
            Há 15 anos no ramo de dar vida nova a aparelhos que na opinião da maioria modernosa não passam de lixo, Mário é um apaixonado pelos objetos falantes: além dos rádios ele também conserta telefones antigos. Com paciência, tal qual uma criança curiosa, ele compra aparelhos bem desgastados e os transforma em novos. Assim, aprendeu marcenaria para fazer sozinho as caixas de madeira, que são verdadeiros ninhos que escondem as válvulas dos rádios.
Em plena era do chip ou da microeletrônica, ele lembra seu primeiro rádio um CCE que ganhou aos nove anos. Mário não esconde a relação entre rádio e infância. Uma nostalgia não o deixa parar. Satisfeito ele atende a outro homem como se brincassem juntos. O homem quer comprar um Cabeça de Índio. Mário explica em ondas curtas, tropicais ou médias, num tempo em que as elites vivem um consumismo sem limites, que os rádios antigos são peças únicas.  O comprador confessa que se lembrou do pai ao ver os rádios expostos. O antiquário pacientemente explica que os objetos trazem ao espectador lembranças, subjetividades, transportando-o para um lugar perdido no tempo, a voz da infância. Vivemos no topo de uma revolução informacional, das web rádios entre outras novidades mas o bom e velho rádio será sempre o meio preferido de diversão e comunicação. “Quando surgiu a Tv todo mundo dizia que o rádio iria morrer. Veio a tv, a tv colorida, a estéreo, a tv de plasma, a digital e o rádio está vivo, vivinho!”
Pergunto o que ele acha das músicas que tocam hoje em quase todas as emissoras comerciais. “Sinceramente, prefiro a velha guarda, um Nelson ou um frevo de Capiba, tudo tem sua cadência.”
Saudosista, Mário segue assim sintonizado com seu tempo...

publicado por novojornalismo às 04:01
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Quarta-feira, 9 de Maio de 2007

MAMÃE FAZ 100 ANOS

Quem diria que ela chegaria aos 100 anos. Outro dia, outro dia mesmo (na década de 80) eu lia do escritor russo Máximo Gorki (1868-1936), A Mãe (de 1907). E lia com os olhos deslumbrados de militante, numa época na qual o Brasil saía do processo de lenta e gradual abertura política e começava a tomar pé da coisa, exigindo eleições diretas e livres.
O escritor Gorki, pseudônimo que em russo quer dizer amargo, criou A Mãe inspirado num fato real, uma manifestação de primeiro de maio de 1902, na cidade de Sormovo, na qual manifestantes são presos e julgados por “perturbar” a ordem pública. Os personagens principais do livro são o operário fabril Piotr e sua mãe Ana Kirilovna Zalomova. Ele é preso e sua mãe toma seu lugar na luta política socialista. Ícone da chamada literatura engajada, A Mãe é com certeza o livro mais famoso do escritor, mas nem por isso é seu melhor trabalho. Contrariando o pseudônimo do escritor, A Mãe é uma ode triunfal ao socialismo e às lutas por justiça na sociedade como um todo. Embora rotulado sob a bandeira de um realismo socialista oficial, o romance de Gorki também traz elementos românticos.
O escritor Frei Betto, no prefácio de A Mãe publicado pela Expressão Popular recentemente, afirma que o livro faz parte das preocupações do escritor russo em retratar a chegada e a expansão do capitalismo na Rússia, em especial em obras que formam um conjunto composto por Os Três (1900), A Mãe (1907), A cidade de Okurov (1909) e A Vida de Matvey Kozemjakim (1910).
Assim como no filme alemão de 2003, Adeus, Lênin!( do diretor Wolfganger Becker), A Mãe de Gorki desperta hoje num mundo transformado e transtornado, já sem o império soviético e o muro de Berlim. Um mundo esquisito, povoado por guerras, fundamentalismos e terrorismos religiosos e de mercado. O mundo sob o risco de um conflito nuclear e também o mundo devastado pela modernidade e seus desastres humanos e ecológicos. Talvez as coisas fossem mais simples em 1907. Hoje, apesar da crise do capitalismo global, que como um monstro devora seu próprio corpo e filhos, vemos um mundo de fronteiras e conflitos. Um outro muro divide os EUA do México e tal edificação é ao mesmo tempo concreta e simbólica, dividindo as pessoas e etnias numa realidade na qual o capital é hegemônico. Talvez as coisas fossem “simples” como no livro O Estado e a Revolução de Lênin... tratava-se de organizar o partido, tomar o Estado pela força e implantar a ditadura do proletariado. Mas a própria América Latina e em particular o Brasil demonstram bem que tal equação não se resolve rapidamente. Vejamos o caso nacional, no qual uma frente “popular” chegou ao “poder” do Estado através de eleições democráticas, mas não operou a uma transformação mínima da realidade das coisas.
Pois bem, Mamãe desperta aos 100 anos e mira-se num espelho enferrujado. Ela liga a TV, esse olho-espelho eletrônico e vê que nada mudou e que tudo mudou ao mesmo tempo. As fábricas, sob o signo da robótica, já não admitem mais tantos operários, os sindicatos burocratizados ou mesmo estão atrelados à práticas entreguistas. Os soberbos condomínios fechados recriam o paraíso na terra. As favelas são misto de purgatório/inferno ou pior. Os shoppings com suas luzes de eterno dia de consumo nos induzem a uma viagem na irrealidade cotidiana. Mamãe toma o remédio pra dormir e “sonha” que o mundo real é um filme ou um programa de TV de imagens calidoscópicas.
O cineasta Carlos Saura nos acorda com seu “Mamãe Faz 100 Anos”. Encontro a cópia em VHS numa locadora daqui do bairro. Pergunto quanto é a locação. E a moça sorridente me pergunta de volta por que ainda tenho vídeo. Digo que é pra assistir filmes velhos, como esse dos anos 80. Ela sugere que eu pague a locação e fique com o filme pra mim já que tudo hoje é digital e que a locadora está se livrando daqueles filmes velhos. Produzido na mesma época em que eu lia A Mãe (de Gorki), o filme de Saura tem como atriz principal a atriz Rafaela Aparício (a mãe), que representa a velha Espanha, castradora, onisciente e onipotente. Mas alguma coisa mudou. As meninas cresceram ( uma se tornou masculinizada e militarista e a outra sedutoramente libertina), Juan fugiu com a cozinheira, Luchy deixou de ser tímida para revelar-se uma ambiciosa mulher de negócios. E, sem muitas ilusões, a velha observa meio que pasma seus filhos a traírem. E, em torno dela, num grande casarão, se reúne a família para uma grande festa de comemoração dos 100 anos.

 

( Ao amigo e professor  Paulo Bezerra, tradutor de Dostoiévski no Brasil)

 

 


publicado por novojornalismo às 20:54
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Quarta-feira, 2 de Maio de 2007

bagagem lírica

 

            Outro dia, visitei a fortaleza de Santa Catarina, em Cabedelo. Forte silêncio, já imortalizado pelo poeta paraibano Saulo Mendonça. Impossível não se transportar a outros tempos quando se visita aquele espaço. É involuntário o devaneio.

O escritor universalmente argentino Julio Cortázar (1914-1984) nos expressa tal sensação no seu “Prosa do Observatório” a partir do antigo ponto de observação astronômico construído por um sultão, na Índia.

            Mas não queria falar de Cortázar ou mesmo do nosso forte e sim de um livrinho chamado “Bagagem lírica- apontamentos de uma viagem literária” (editora Sal da Terra, 2005) escrito pelo paraibano André Ricardo Aguiar e pela portuguesa Margarida Ribeiro. É interessante como os espaços carregam história e como eles nos impactam. É um pouco o que Blake dizia: caminhamos sobre as cabeças de nossos mortos.

            O brasileiro e a portuguesa nos lançam inicialmente a um pórtico que uma advertência sobre a viagem. O livrinho de 60 páginas não é um guia de viagem para turistas nem segue um roteiro coerente. Trata-se sim de uma viagem aos pulos, de uma viagem na qual o que importa é a bagagem lírica.

            Aldeias, costumes e castelos se mesclam numa prosa viva, num verdadeiro diálogo pós-colonial entre povos irmãos, entre homem e mulher. Claro que o passado traz a memória da colonização. O livro de André e Margarida situa-se como se o Brasil “descobrisse” Portugal aos 500 anos. Não com a gana de conquistar ou dominar, mas de sentir, deixar-se levar pela humana paisagem, pelos elementos, pelas experiências. Lusíadas imagens, lusitana saudade cravadas na pedra da memória.

            Bagagem lírica traz em si o discurso da pedra que carrega o passado e o futuro, a runa. A pedra, como diria o pensador dos elementos Gaston Bachelard(1884-1962), está presente em todos os diálogos como sinônimo de civilização, mas também de anterioridade e de eternidade. A fenda da pedra portuguesa, cravada num castelo ou forte visitado pelos dois autores, ao mesmo tempo os protege da chuva repentina e também os acolhe como grande útero protetor. E o que a água do mar separa a chuva une, numa dinâmica entre o doce e o salgado.

            E ao retornar de tal viagem sentimental, por que não lembrar Laurence Sterne (1713-1768), no qual o viajante não busca paisagens nem monumentos mas pequenas impressões, causadas principalmente pelo elemento humano. E também, por que não também lembrar das cidades imaginadas de Ítalo Calvino? Tudo isso numa cidade “quatrocentona” como a capital da Paraíba.


publicado por novojornalismo às 04:11
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